Já escrevi em textos anteriores que, na Austrália, não me movo sem antes pedir permissão e proteção aos povos indígenas locais. Derivação direta do Acknowledgement of Country. Na área onde moro, Northern Beaches de Sydney, todos os dias peço mentalmente permissão e proteção aos guardiões dos clãs Gayamagal e Garigal. Não por acaso, sempre abro o meu programa de rádio, Back in Brazil, fazendo essa deferência. Quando vou ao escritório, em Surry Hills, também peço o mesmo ao povo Gadigal da nação Eora.
Em Aotearoa, também conhecida como Nova Zelândia, não seria diferente. Ainda mais em uma terra em que os povos originários alcançaram avanços tão importantes após a invasão dos colonizadores, como o reconhecimento da língua maori, ou te reo Māori, como língua oficial do país, em 1987.
No aeroporto de Sydney, é muito bom ver os painéis exibindo Queenstown sempre acompanhada do nome maori da cidade, Tāhuna. E, com esse respeito em mente, eu não apenas fazia o Acknowledgement of Country diariamente em Tāhuna, como também quando subia Pāhāraki, o nome maori de Coronet Peak, a montanha da estação de esqui. Aprendi isso há 25 anos com os índios xavante de Wederã/Pimentel Barbosa, no Brasil, e achei incrível quando descobri que fazem o mesmo por aqui.
Fiz essa breve introdução indígena-metafísica para contextualizar que, após o rito do equipamento perfeito, eu finalmente subi os degraus que dão acesso à magistral estação e à sua vista cinematográfica. Apresenta-se uma imensidão colossal de neve, subidas, descidas, curvas, uma quantidade enorme de pessoas, com esqui, sem esqui, esquiando, capotando, tomando chocolate quente, criançada se esbaldando na neve, algumas com meleca verde congelada entre o nariz e a boca, enfim, exceto por essa última parte, parecia um filme que foi rapidamente trazido à realidade pelo ar cada vez mais gelado na cara e pelas botas dando fortes caneladas a cada passo em direção à parte fechada da estação, onde estão banheiros, dezenas de mesas, restaurante, café e, claro, um bar.
Tomamos um café e nos dirigimos para a parte da estação onde seriam as aulas. Deixamos o Martín e as outras crianças na parte delas e fomos para o setor “Primeira aula de esqui da vida para não-crianças”. Enquanto caminhava, respirei profundamente, me conectei ainda mais à maunga, a palavra maori para montanha, pedindo ainda mais proteção para estar lá. E começamos as primeiras lições.
A sessão inicial é tudo menos divertida, tamanha a quantidade de adversidades. Não que não seja legal, pelo contrário, mas são tantos os fatores desfavoráveis que, naqueles primeiros movimentos, não foi nada prazeroso. A começar pela tensão. A lógica do esqui na neve é muito cruel, pois ele é feito para deslizar. E, no início, como ainda não sabemos frear, um simples movimento em falso e já começamos a descer montanha abaixo. No nosso caso, ainda estávamos no rasinho, mas é o suficiente para bater um certo pânico, pois ainda não dominamos o mais básico dos fundamentos: a pizza. Muito menos acreditamos na pizza.
Trust the pizza
“Trust the pizza” é o mantra número um do beabá na montanha. A pizza, ou snowplow, é a posição básica – que no início não é nada básica – de aproximar as pontas dos esquis e afastar os calcanhares formando um “V”. Ou um pedaço de pizza. Isso, em tese, é o nosso freio, a maneira de controlar a velocidade e parar com segurança. Lindo na teoria, mas dificílimo nas primeiras horas. Mesmo parado, às vezes a pizza não funcionava e a gente acabava deslizando um pouco, o suficiente para dar um tostãozinho na pessoa a frente. E o principal problema, quando a gente começa a descer minimamente com os esquis, mesmo no rasinho, é o fato de que, se os esquis se cruzarem, desfazendo a pizza, a chance de decapitar os joelhos se estivermos em uma velocidade razoável é imensa. Então o primeiro grande desafio é dominar a maledeta da pizza para: um, conseguir frear e não atropelar ninguém; dois, conseguir frear e não despencar de uma altura entre 1,187 e 1,649 metros de altura, dependendo de onde estiver na Coronet Peak.
Enquanto treinávamos a pizza, o frio se intensificou e começou a chover. E ventar. O que tornou a manhã ainda mais desconfortável, já que, usuário de óculos, eu começava a perder visibilidade. Além da briga com a gravidade, da lógica deslizante do esporte e da dificuldade de dominar a pizza, ainda tive de fazer tudo sem enxergar um palmo à frente. Pior, com a chuva batendo forte no capacete, rapidamente fui tomado por aquele som de telhado da casa da vovó em dia chuvoso, o que praticamente me impedia de ouvir as orientações do instrutor. Tempestade perfeita para a primeira sessão na neve.
Após alguns espacates tentando frear os esquis, alguns tombos moderados e o infringimento de umas seis regras de segurança e umas 14 de trânsito, tive um início de conflito mental comigo mesmo, fruto da frustração por ainda ter praticamente zero habilidade para um desafio que exigia altíssimo grau de domínio da pizza, o que resultou em muitos impropérios proferidos a mim mesmo.
Felizmente, fui salvo pelo gongo, para usar uma expressão do boxe, o esporte mais próximo do que a minha cabeça começava a praticar àquela altura. Teríamos um intervalo de uma hora para o almoço.
Confesso que estava sem fome alguma. Tomei apenas um café e comi um croissant para evitar desmaios vespertinos, além de beber bastante água. Como a estação estava muito cheia, não conseguimos pegar mesa dentro. Acomodamos as crianças, mas acabei ficando quase o tempo todo do lado de fora, num baita frio e em pé para fugir da chuva. O copo cheio disso tudo foi o fato de que as botas dando caneladas se tornaram um problema tão menor que esqueci que o Júnior Baiano e o Bruce Lee haviam achado um lugar nas minhas pernas pra chamar de seu.
Mas o meu amadorismo na neve estava prestes a cobrar um grande preço. Para minimamente poder comer e fazer outras atividades que requerem o uso das mãos, como ir ao banheiro, arrumar camadas e camadas de roupas e secar os óculos inutilmente, era necessário tirar as luvas. Mas o frio era tanto que precisava colocá-las novamente. E depois tirar. E depois pô-las de novo. Assim, não percebi que nesse entre-e-sai as luvas ficaram umedecidas por dentro. Tipo, encharcadas mesmo. Proporcionalmente, fui ficando com mais frio na mão, a chuva aumentava e era quase hora de retornar à pista.
Uma das crianças que estava conosco chorava copiosamente porque não queria voltar tão cedo para a aula sob o aguaceiro. Naquele momento, fui tomado pelo Pablitinho, a minha criança interior, que não apenas a compreendeu perfeitamente, como também gostaria de fazer o mesmo. Se eu tivesse sete anos, eu certamente teria desistido. Foi ali que me dei conta de que a potencial crise de meia-idade era, na verdade (tipo Scooby-Doo), um potencial acerto de contas com o passado.
Eu, obviamente, não desistiria porque seria um péssimo exemplo para o Martín, meu filho. Afinal, nada grave havia acontecido. Apenas, uma avalanche de adversidades, com o perdão do trocadilho. Porém, agora estava claro que a questão era mais profunda, eu não poderia nem pensar em desistir porque foi isso que fiz durante muito tempo na minha infância. Judô, karatê, natação, kung-fu, tênis e a lista continua. Quando ficava chato, ou muito difícil, eu pulava fora.
Me solidarizei com a nossa pequena, mas valente amiga que chorava copiosamente, respirei fundo para me manter conectado à montanha e, ao pegar os esquis e os bastões para as atividades, me dei conta de que, por conta do frio e da água que entrou na luva, eu estava com muita dor nas mãos, sobretudo na direita. A dominante. Pior! Quando recomeçou a aula e fomos para um ponto mais alto do que estávamos inicialmente – sim, avançamos algumas casas -, percebi que eu não sentia mais o dedão direito. Aquele mesmo, o polegar opositor, que o cineasta Jorge Furtado nos ensinou em 1989, no documentário Ilha das Flores, ser o diferencial da nossa espécie em relação aos outros animais, juntamente com o telencéfalo altamente desenvolvido.
Ou seja, na segunda sessão, com mãos dormentes e inexistência de dedão, eu era praticamente um gorila sem controle solto na montanha.
Continua…
Caso não tenha lido a Parte I desse texto, é só clicar no link abaixo.




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