Devido aos imensos avanços na ciência, na medicina e, principalmente, às mudanças muitas vezes questionáveis na maneira de embalar e vender qualquer produto, serviço ou conceito nas últimas décadas, não sei se o termo meia-idade cabe pra mim, se ele ainda se refere a uma pessoa de 50 anos. Em todo caso, como completarei meio século em alguns meses e, apesar de não me sentir um senhor de meia-idade, o tempo é implacável nesse sentido, já que a aproximação dos 50 anos é uma realidade irrefutável, não tenho como dissociar a minha primeira experiência de esquiar na neve do fato de ter sido na meia-idade, sobretudo com o contraste de fazê-lo com o meu filho de seis anos, quase sete.

Fomos a Tāhuna, também conhecida como Queenstown, famoso destino turístico de inverno ao sul da ilha sul de Aotearoa, também conhecida como Nova Zelândia. Este foi o ponto mais ao sul a que já fui na vida, ainda mais ao sul do que a linda Hobart, capital da Tasmânia, que fica ao sul deste, que é o estado mais ao sul da Austrália.

Importante: nunca na história dos pontos cardeais alguém que mencionou seis vezes a palavra sul em um único parágrafo saiu impune do gelo. 

Como este não é um relato de viagem, e sim uma potencial crise de meia-idade, vou direto aos três dias de esqui na montanha. Sim, tínhamos um plano. Aula nos dois primeiros dias, obviamente em grupos diferentes, o Martín, meu filho, com as crianças da idade dele, e eu, com quaisquer aventureiros não-crianças de primeira viagem. Já o terceiro dia, caso sobrevivêssemos, seria para colocar em prática o que aprendemos nos dois primeiros. Matemática simples. Já a Luciana, no melhor estilo mãe de são-paulino e parceira de são-paulino, estava vetada pelo departamento médico por conta de ruptura ligamentar no joelho. Praticamente um misto de Calleri com André Silva e Rayan Francisco. Ao menos ficou com a braçadeira de capitã do nosso camisa 9, exercendo uma liderança crucial como o amigo leitor e a amiga leitora verão à frente.

Por questões logísticas para se chegar à estação na montanha com outros dois casais que viajaram conosco, num total de quatro crianças entre 4 e 7 anos, precisávamos acordar às 5:30 da manhã no primeiro dia – o que no fuso-horário de Sydney eram 3:30 da matina – para andar a uma temperatura de 1 grau até o ponto de ônibus, depois esperar, também a um grau, já no centrinho da cidade, o ônibus para subir a montanha, e começar a peregrinação em busca do equipamento perfeito.

Sim, o aluguel do equipamento perfeito é um ponto crucial do primeiro dia, pois leva tempo, serve para os demais dias e é doloroso.

O primeiro e mais importante equipamento é a bota. E elas doem. Dor essa que salva vidas, é verdade, pois se não fosse a dureza das botas, joelhos e tornozelos seriam rapidamente decapitados na montanha. Imagino que o uso do verbo decapitar não seja o mais correto para joelhos e tornozelos, mas é o que melhor descreve o que aconteceria se não fossem as dolorosas botas.

Depois de medir os pés, a gente recebe os referidos calçados que, no primeiro dia, são quase impossíveis de serem colocados. Além de muito dura, a estrutura deles, a princípio, não faz o menor sentido do ponto de vista de UX, ou experiência do usuário, para usar um termo moderno. Numa primeira tentativa, não há a menor clareza de que há um método para calcá-las. Assim, depois que deslizei a ponta do pé direito para dentro, nada na bota se alterou. Comecei a forçar o pé para encaixá-lo. Impossível. Fiz mais força e já começou a machucar os dedos da mão, que não tinham nada a ver com a história. Eles escorregavam e se feriam. Era apenas o início da batalha. Para preservar os dedos, forcei a mão. Quase abri o pulso. Parti para o braço, tentando preservar o pulso, e quase travei as costas sem ainda ter tocado numa caralha de uma neve. Tirei o pé de dentro, carreguei as botas para um outro banco, onde eu teria mais espaço para uma nova tentativa na esperança de que a mudança pudesse resultar em alguma vantagem, ação típica de quem passou metade da vida assoprando objetos eletrônicos quando esses paravam de funcionar, entendendo fantasiosamente que o problema era a poeira.

Por sorte, Luciana também estava por ali e ajudava o Martín, pois se estivéssemos só eu e ele, acho que não passaríamos nem da etapa da bota.

Respirei fundo. Na segunda tentativa, já transpirando mais do que um camelo no deserto, só que num ambiente levemente aquecido e já sentindo os 3 graus negativos que sopravam de fora, pedi ajuda a um funcionário, que falava o óbvio, mas eu não conseguia executar.

Depois de muito esforço físico e um início de conflito mental, consegui colocar as duas botas. Mas, infelizmente, o pior ainda estava por vir.

Buckling up!

Jamais esquecerei esse verbo.

Uma vez com as botas nos pés, era preciso afivelá-las. Mas como fazer isso numa estrutura que parecia a de uma armadura de cavaleiro medieval, que para os iniciantes é praticamente uma esfinge ortopédica esperando ser decifrada e, pior, feita para que joelhos e tornozelos não sejam decapitados? Pior, são três fivelas em cada bota, o que nos dá um total de seis horas, quer dizer, seis fivelas a serem fechadas com segurança. Juro! É muito esforço. Eu e um dos amigos que estava conosco – também esquiador de primeira viagem – sofremos o mesmo, e, após muitas tentativas, pedidos de ajuda, xingamentos internos e em voz alta, conseguimos, já uns dois quilos mais magros, prender com segurança as duas botas.

O próximo equipamento a ser moldado sob medida seria os esquis. Ao me levantar para ir ao lugar dos esquis e dar o primeiro passo, a bota travou na canela como se o Junior Baiano tivesse dado um carrinho de frente. No passo seguinte foi a vez do Bruce Lee desferir uma voadora na canela esquerda. Como são desenhadas para evitar decapitação de joelhos e tornozelos, as botas, além de muito presas e pesadas, também travam na canela quando a gente anda, o que, nos primeiros movimentos, é simplesmente desesperador.

O aluguel dos esquis já é mais fácil, pois como o ajuste do tamanho é baseado na bota, ou seja, cada bota precisa encaixar e fazer o clique perfeito no esqui, o processo é mais rápido e indolor.

Esqui e botas resolvidos, depois foi só pegar os dois bastões — o que, dependendo do nível de iniciação, são praticamente duas bengalas —, escolher um capacete e subir os mágicos degraus que nos levam à montanha, ou maunga, no vocabulário maori, deferência que se mostrou crucial para evitar desastres maiores. Mas isso deixo para a segunda parte.

Continua…

2 respostas a “Neve na meia-idade – Parte I”

  1. Avatar de luminaryselfless129838ec7d
    luminaryselfless129838ec7d

    Parabéns Pablo, mais uma vez você arrasou Quero ler ou reler todas as outras crônicas É só clicar no ano?

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    1. Obrigado!
      Sim, é só clicar nos anos que dá pra ler os anteriores.

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