Semana passada, uma rápida conversa com a amiga Clara Coelho sobre uma postagem do amigo Cipassé Xavante trouxe lembranças de uma recente palestra que tivemos com uma anciã aborígene, Aunty Munya Andrews, que ilustrou algo que há duas décadas ouvi pela primeira vez com o Cipassé quando visitei a aldeia Wederã, na reserva Pimentel Barbosa (MT), e agora fez ainda mais sentido.

Na ocasião, quando estávamos com os índios, toda vez que deixávamos o centro da aldeia e íamos para um rio, uma floresta, uma montanha, ou seja, onde quer que fôssemos, eles sempre falavam para pedirmos permissão aos mestres e guardiões daquele lugar antes de entrarmos, subirmos, mergulharmos, enfim, vocês entenderam o recado.

Eu, claro, obedecia.

Teve até um episódio que a gente ouviu por lá, de uma warazu (não-índio) que subiu numa montanha com eles se recusando a seguir os, digamos, paranauês acima, e acabou não só caindo como machucando feio a perna ou o joelho, não me lembro exatamemente.

Pois bem, no workshop durante a Semana da Reconciliação, Aunty Munya Andrews, juntamente com a sua parceira de Evolve Communities, Carla Rogers, falando sobre a imensa quantidade de nações aborígenes que viviam por aqui milênios antes de qualquer europeu sequer sonhar em acender um fogo com um pedacinho de graveto, disse que é muito importante, toda vez que a gente entra em uma nova nação, perdir permissão.

Motivo? Além de demosntrar respeito – que é o que eu achava quando o xavante trouxe o tema -, tem também o fator de proteção, que ela nos contou como um conselho de uma… tia-sábia-anciã.

Não me recordo do Cipassé ou dos outros terem verbalizado a questão da proteção, mas na fala da Aunty Munya caiu a ficha de que lá atrás já estava implícita.

E, na minha modestíssima opinião, é coincidência zero que dois povos originários fisicamente tão distantes tenham um hábito corriqueiro e metafisicamente profundo tão similar.

Faz sentido?

Na dúvida, Gil ajuda:
“Até que nem tanto esotérico assim
Se eu sou algo incompreensível
Meu Deus é mais
Mistério sempre há de pintar por aí”

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