“Carnaval é invenção do diabo que Deus abençoou”, vem dizendo o poeta em muitos Carnavais.

Pouca gente sabe, mas quando Adão e Eva desembarcaram por aqui, vindos sabe lá de onde, nascia também o primeiro bloco de Carnaval: Atrás do Fruto Proibido Só Não Vai Quem Já Mordeu. Bloco pequeno, é verdade, desses que ainda é possível encontrar nas ladeiras de Santa Teresa, mas barulhento. Deixou um legado eterno.

Anos depois, quando invadiu o templo para tocar os comerciantes da fé alheia pra fora, o bloco do Cabeludo e Seus 12 Followers, para usar um termo atual, não poupou garganta para denunciar os abusos e a opressão dos poderosos sobre os menos favorecidos. Mas nem tudo foi confete e serpentina, como sabemos e, seguindo a doutrina romana de dividir para reinar, houve trairagem e, mesmo com o bloco proibido (e carregando essa cruz até hoje), o Cabeludo ainda olha por nós.

Jesus Cristo coberto após censura no desfile do carnaval carioca de 1989.
“Ratos e Urubus, Larguem minha Fantasia”, desfile histórico da Beija-Flor de Joãosinho Trinta, em 1989.

O Céu, diferentemente do que pregam por aí, é o local mais ecumênico que se tem notícia. E o Carnaval por aquelas bandas não é diferente. Neste ano, ao lado de Cartola, Jim Morrison vestindo a camiseta da Vai-Vai e marcando o ritmo em uma caixinha de fósforo acompanhava Beth Carvalho e João Nogueira. Atrás dele, um desnudado índio Tupi sambava enquanto os dedos de Jimi Hendrix se esbaldavam em uma guitarra baiana. Já na mesa ao lado, John Lennon e George Harrison engatavam uma longa conversa com Dodô e Osmar, aparentemente sobre se a Mangueira é, de fato, onde o rio é mais baiano.

Guitarrista do The Doors, Robby Krieger, em podcast com camiseta da Escola de Samba Vai-Vai.
Guitarrista do The Doors, Robby Krieger, com camiseta da Escola de Samba Vai-Vai.

No meio da festa, e que festa!, abre-se a grande porta para a entrada do próximo bloco. Tio Dorlan no surdão ao lado de Tio Carlinhos, olhos mareados e uma cachacinha na mão, são seguidos por Paulinho Martins que, todo de branco e usando a velha papete 1992 de quando morava em Cananeia e tinha a proeza de estudar no Colégio Objetivo, em São Paulo, segurava com um amor fraternal a mão de Rafael Cury, o Fafau, recém-chegado na folia celestial. Quem o recebe é Dr. Sócrates. Ele está acompanhado de Tom e Vinicius, e diz:

– Seja bem-vindo, Rafinha, e escolha aonde quer desfilar o seu talento. Temos aqui a ala dos poetas, dos escritores, dos músicos, tem até dos publicitários, mas essa aí não recomendo porque eles estão no meio de um job. Divirta-se!

Descanse em paz, Compa!

Programa Na Ponta Esquerda da TV 247

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