Não é só o tabeleiro, ou head of draw como dizem atualmente, do Campeonato Brasileiro que é mestre em fazer tabelas esdrúxulas que tornam certos jogos absolutamente injustos. Ainda mais no esporte atual, que é brutalmente físico e horas (ou dias) a mais de descanso fazem muita diferença.

Por aqui, na Austrália, o head of draw, ou tabeleiro, como dizíamos no final dos anos 1980, da NRL, a National Rugby League, acabou de fazer uma enorme lambança nas duas primeiras rodadas das finais que vai prejudicar o Canterbury-Bankstown Bulldogs ou o meu Manly Warringah Sea Eagles.

Imagem criada por inteligência artificial para retratar o glorioso tabeleiro (ou head of draw).

Primeiramente, importante pontuar essa profissão, que até a década de 1970 nem era uma profissão, mas uma função que historicamente na CBF e, concomitantemente, na Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ) era exercida pelo Mesquita.

Nascido no Meyer e criado no Catete próximo à divisa com Laranjeiras, o Mesquita era o artista responsável pelas grandes tabelas do saudoso Torneio Roberto Gomes Pedrosa, do Brasileirão e, claro, dos inesquecíveis Cariocas que contemplavam quadrangulares finais com cinco times.

O Mesquita reinou absoluto até o fatídico Campeonato Brasileiro de 1986, vencido pelo São Paulo, claro, que reuniu nada menos do que 80 clubes. Isso mesmo! OI-TEN-TA clubes.

Naquele ano, a CBF juntou o equivalente as atuais séries A, B e C numa única competição, e o Mesquita, ao receber a encomenda uma semana antes da bola rolar, sentiu fortes dores no peito, precisou ser levado às pressas ao Souza Aguiar e, para dar conta da tarefa, chamaram um discípulo do grande matemático e habitué do Fantástico Oswald de Souza, que destrichou aquele caos em pouco mais de um dia. Nascia ali a profissão do tabeleiro.

Nos anos 1990, com a pretensa ou pseudo profissionalização do futebol, o tabeleiro logo virou o superintendente de tabela e, após a consolidação do Projeto Vanderlei Luxemburgo, foi alçado para gestor de tabelas. O termo durou até os primeiros anos da década de 2010, quando a position head of draw foi adotada nos Estados Unidos e, rapidamente, se alastrou pelos quatro cantos do mundo, do Meyer a Faria Lima, de Nova York a Sydney.

Pois bem. Na noite deste domingo (8), com a definição dos oito classificados para as finais do campeonato de rugby league local, o head of draw, sabendo que o perdedor do jogo entre Panthers e Roosters jogará contra o vencedor de Bulldogs e Sea Eagles, colocou Panthers e Roosters para testarem forças na sexta-feira (13), às 19:50, enquanto que Bulldogs e Sea Eagles se enfrentarão somente no domingo (15), às 16:05.

Ou seja, na semana seguinte, o perdedor da sexta-feira terá dois dias extras para descansar e se recuperar antes de enfrentar o vencedor do domingo. DOIS-DIAS-EX-TRAS. Detalhe: quem perder será eliminado, enquanto que o vencedor garante vaga em uma das semifinais.

Lembrou muito o que ocorreu no Brasileirão deste ano, quando Corinthians e São Paulo empataram em 2 a 2 na Neo Química Arena, em 17 de junho. Antes de encarar o Tricolor, o Alvinegro havia entrado em campo no dia 11 contra o Atlético-GO, enquanto que o São Paulo pegara o Internacional no dia 13. Dois dias a mais de descanso para o time de Itaquera. E isso ocorre aos borbotões no Brasileirão e suas intersecções com Copa do Brasil, Libertadores e Sulamericana.

Por aqui, não acontece com tanta frequência, mas tem o agravante de ser em uma das partidas mais decisivas da temporada. O Twitter, ou o que restou dele, está enlouquecido desde que a tabela foi anunciada.

O Mesquita errava, mas injustiça assim ele jamais cometia.

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