Por conta dos últimos stories no Instagram, muitos amigos estão perguntando como chegamos em Sydney – uma vez que as fronteiras do país estão fechadas – e também sobre a quarentena que somos obrigados a encarar. Vou então tentar fazer um rápido resumo.

As fronteiras da Austrália estão de fato fechadas, exceto para cidadãos australianos, residentes permanentes ou alguma exceção, como por exemplo, se eu fosse um atleta da elite do surfe mundial, tipo Pablinho Ferreira, e viesse disputar as etapas por aqui. Como este, definitivamente, não é o caso (nem mesmo o Fantasy da WSL jogo mais), pude voltar para cá pela opção P de residente permanente, enquanto que a Luciana e o Martín, meu filho, vieram pela opção C de cidadãos.

Estando apto a entrar no país, o passo seguinte é comprar uma passagem e, o mais difícil, embarcar.

Em boa parte de 2020, nenhuma companhia aérea voava para a Austrália. E, até o presente momento de 2021, somente a Qatar Airways faz o itinerário saindo do Brasil. Porém, com o baixo limite diário de passageiros que podem entrar em cada estado (em New South Wales, onde estou, é coisa de máximo de 430 por dia, Melbourne 1000 por semana, Perth 512 por semana e por aí vai), o voo da Qatar, mais do que um transporte aéreo, é uma peça de marketing com asas (ou branding, como dizem os marqueteiros). Porém, até conquistar o objetivo final que é mentes e corações, o efeito é contrário e o voo é um grande gerador de estresse, ansiedade e úlcera. Explico.

Imagine uma aeronave com capacidade para aproximadamente 600, 800 passageiros (não sei, estou chutando) levando apenas 50. Isso mesmo, CIN-QUEN-TA pessoas. É praticamente um BOEING 777-300ER voando a 917 km/h, a 9.450 m de altitude e percorrendo 12.388 km para chamar de seu. Para terem uma ideia, na parte da econômica que voamos, entre o fundo do avião e o banheiro seguinte, ou seja, dezenas (se não for centenas) de lugares – pois cada fileira possui 10 ou 9 lugares -, voamos apenas nós três e outra família de casal e bebê. Foram as pessoas que mais tivemos contato – fora do círculo familiar – desde o início da pandemia.

Essa conta, em tese, obviamente não fecha. Por mais que as passagens sejam muito mais caras do que o habitual, os 50 que embarcam não compensam o prejuízo financeiro de um voo vazio. Então por que cargas d´água a Qatar está voando para a Austrália, se nem a Qantas, ‘the spirit of Australia’, está se metendo a besta (atualmente faz apenas voos da Nova Zelândia, que em termos proporcionais não passa de uma ponte aérea)? A resposta, conforme mencionado acima, é branding (como dizem os marqueteiros).

Dubai/Emirates, Abu Dhabi/Etihad e Doha/Qatar duelam pelo posto de principal hub aéreo daquelas bandas, sendo fundamentais para conectarem voos entre os lugares mais disparatados do planeta como, por exemplo, São Paulo e Sydney. Com isso, a hipótese de milhões ou bilhões de petrodólares estarem sendo despejados por Doha para pavimentar essa vitória num futuro breve é bastante plausível. Ainda mais com a Copa do Mundo FIFA no Catar em 2022, o que só aumentará a visibilidade do país da família Al Thani.

Independentemente, voo vazio não significa pouca procura, mas demanda reprimida. Ou seja, muita gente quer voltar para casa ou se mudar de vez para a Austrália, porém, como o limite para desembarcar é muito baixo, é aí que entra em campo o fator gerador de estresse, ansiedade e úlcera mencionados no início.

A média que temos acompanhado são quatro a cinco cancelamentos de voos até conseguir embarcar. A família que esteve na nossa ‘ala vip’ do avião teve cinco cancelamentos. Nós tivemos sorte e cancelaram apenas uma vez. E não é que cancelam o voo, é a passagem que cai.

O que se ouve nos corredores e bebedouros online é que a prioridade de embarque é para quem viaja nas classes mais caras e, com isso, portadores de tíquetes das classes econômicas vão ficando à mercê do que sobra para embarcar. Não estou dizendo que é isso, mas é o que se ouve. Tanto que uma dica importante que tivemos foi: se forem voar de classe econômica, comprem no mínimo a categoria Y. Em tempo: nunca soube que existiam subcategorias na nossa gloriosa econômica. Menos que a Y, segundo a agente de viagem que deu a dica, a chance de demorar meses para embarcar é muito grande. Nós fizemos isso e talvez tenha sido decisivo para termos somente um cancelamento.

O primeiro cancelamento, claro, a gente nunca esquece. Especialmente num contexto covídico, em que entregamos o apartamento de São Paulo em março, nos mudamos para a casa da sogra em Petrópolis, despachamos algumas coisas via transporte naval para Sydney e, a cada novo cancelamento, inicia-se uma nova logística, pois é preciso ser testado para a Covid-19 no máximo 72 horas antes da perna de Doha, preencher formulários do governo em, no máximo, 72 horas antes do embarque, programar comida, fraldas e roupas do Martín para pouco mais de 60 horas de viagem (Petrópolis-Santos Dumont-Guarulhos-Doha-Sydney), não pegar o coronga senão não embarca, enfim, questões que não são problemas algum, apenas constatações de um ponto de vista de absoluto privilégio (o chamado White Man’s Problems), mas que certamente geram ansiedade e uma grande insegurança.

Bom, o texto ficou longo, no próximo trago os trâmites da entrada na Austrália e, claro, a quarentena no hotel.

Até!

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Volta para a Austrália durante a pandemia – Parte III: Elvis has left the building

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